20.11.08

Fios

O oscilar das cabeças em sintonia com o trânsito. Olhos fixos no mesmo ponto, lá fora. A chuva bate nos vidros e o vento assobia, entrelaçando-se com o murmúrio constante dos carros. Condutores hipnotizados por milhares de pontinhos cintilantes, embora sem brilho, reflectidos nas pequenas gotas formadas, juntos numa imensa massa deprimente.

Faltava pouco menos de dez minutos para as cinco e já anoitecia quando entrámos para o autocarro. Eu e mais quinze pessoas, como que em rebanho, sem pensar... saem quinze, entram quinze. Um equilíbrio fascinante, sem cor, cinzento. Para onde quer que olhe vejo corpos. Cadáveres com espasmos...continuam em pé. Nada mais. Em pé. Com os seus olhares vazios parecem esconder algo...Tentam esconder o próprio vazio.

Todos os dias faço este caminho, escuro. Lanço-me nos passeios, desejoso por chegar a casa. Faço o caminho de olhos postos nas pessoas. Sou o único. Todos fitam o chão e quase que vejo o fio. O fio que vai preso ao peito das pessoas e as guia para o seu buraco. Será que sou o único que os vê? Todos estão ligados por fios. Todos menos um. Ele. Um homem que deambula nesta rua pelo menos desde que me foi dada a faculdade da memória. Parece andar em câmara lenta no meio da multidão. Sempre àquela hora tomava o mesmo caminho, podia mesmo acertar o meu relógio por ele. Passava sempre em passo certo, ritmado. Pensava eu se não seria humano, mas uma visão. Não é puxado por nenhum fio, e o modo como planava por entre as calçadas fazia-o girar fora do círculo do tempo. Há anos que o vejo, com um rosto plano, inalterável. Sem grandes traços característicos. Por mais estranho que possa parecer, penso que, apesar de o ver há muitos anos todos os dias, se não fosse o facto de não ter o fio, eu não o reconheceria. Cada dia que passa, menos o seu rosto me fica na memória, embora eu pense cada vez mais nele. Como que um “rosto padrão”.
A curiosidade, despertando cada vez mais em mim, enaltecia a minha vontade de confrontar aquele homem. Quem é ele?

No dia seguinte voltei para casa pelo mesmo caminho, por entre os mesmos fios das mesmas pessoas que amassavam os mesmos passeios...até que o vi. É agora. Este vai ser o momento do confronto. E quando me preparava para dar o primeiro passo em direcção ao sítio onde o havia visto, perdido no meio da multidão, vejo-o mudar de direcção, dobrando uma esquina que nunca o tinha visto dobrar. Senti-me compelido a segui-lo. Por mais que me apressasse, o homem continuava sempre à minha frente, como água a escorrer por entre os dedos. Continuei a segui-lo por ruas, esquinas e mais ruas. O meu coração batia cada vez mais rápido, alimentado pela excitação, pelo medo também. Foi já passados uns bons minutos que começou a abrandar. A rua havia ficado cada vez menos congestionada e as vitrines das lojas molhadas cada vez menos constantes à medida que nos afastávamos do centro da cidade.A abrandar cada vez mais até que parou à porta de um enorme edifício com uma porta verde, entreaberta. Olhou para mim. Fitou-me com um olhar de que jamais me esquecerei. Fez-me sentir quente e fez os fios das pessoas , que me ladeavam e chocavam lentamente contra mim, desaparecerem. Entrou no edifício e senti uma voz na minha cabeça convidando-me a juntar-me a ele. Foi o que fiz. Entrei num espaço sem ruído, sem fumo, sem fios. Enormes paredes nuas de pedra escura transmitiam, estranhamente, uma sensação acolhedora de calor. Vários corpos pairavam em longos, maciços bancos. Os corpos sorriam...eram Pessoas. Livres de fios, exalavam um calor irresistível. O homem fitou-me de novo, agora com um sorriso, e acenou-me pacificamente, dirigindo-me para o seu lado, num dos bancos. Com a boca entreaberta, senti uma força puxar-me na sua direcção, sentar-me ao seu lado. Fez-me um sinal para nos ajoelharmos.
O sentimento, uma mistura paradoxal de energia pulsante e paz profunda, era intenso e sedutor. Ajoelhei-me mortal, levantei-me imortal...

Depois tudo ficou diferente. Sentia-me, tal como aquele homem, alheio à multidão que seguia, como sempre, com o seu fio condutor, cega. Sentia-me capaz de ver para além dos seus olhos...afinal de contas, todos tinham algo a esconder, tal como eu tinha. Não era só o vazio. Sentia-me alheio, mais lento que todos, mais desperto que todos. Já tudo fazia sentido...as estrada, as árvores, o ar falavam comigo numa linguagem de unidade. Tudo se interligava com cor, o cinzento desvanecia. Será que aquele homem se sentia assim quando era a vez dele de deambular pelas ruas? Será que tomei o seu lugar? Será que eu era um destes corpos? Será que, também eu, havia sido guiado por um fio? Um fio que todos viam menos eu? Será que a minha função agora é que alguém desperte, olhe para mim, e sinta o mesmo que eu senti quando olhei para aquele homem? Será que a minha função é guiar esse corpo ao edifício e ajoelhá-lo? Mostrar-lhe o caminho?