17.12.08

Bizarros minutos


Era um homem normal,um como os outros, talvez.Numa certa manhã foi provavelmente para o trabalho,como qualquer outra pessoa , caminhando pelas magnificas ruas de Lisboa.Estávamos em Janeiro, e o Inverno cobria a cidade em tons de cinzento.
Lembro-me de sentir uma estranha sensação de desconforto quando cruzei olhares com este esteriótipo de pessoa banal.Talvez o desconforto deu-se devido ao facto de ele ser tão indiferente..
Após esta estranha troca de olhares resolvi,ainda intrigado, desviar a atenção para o quotidiano e deslocar-me como todos os outros à minha volta.
Foram breves os segundos que se sucederam a seguir a este confronto pois rapidamente percebi que algo estava errado. O senhor, com o qual eu tinha cruzado olhares, estava agora deitado,estendido nos passeios da cidade.
Foi bizarro pois este não parecia nem morto nem magoado, estava simplesmente deitado, olhando para o céu, suavemente. Fiquei estupefacto e antes de poder dizer o que quer que fosse ao homem, um senhor tropeçou nele deixando cair todos os seus pertences.
-Então, o que faz aí deitado caramba?Você está bem?Perguntava o homem que caíra, com um certo tom de raiva na sua questão.
-Sim, só quero estar sozinho, deixe-me em paz por favor. Respondia, imóvel.
-Deixo-o em paz?!Então o senhor deita-se no meio da multidão e espera que ninguém tropece em cima de si?Está louco?Se quer paz meta-se num autocarro e feche-se em sua casa, você mais a sua bebida ou o que quer que seja!
-Não estou bêbado.
-Então diga-me o que se passa aqui pois eu não posso admitir que pessoas como você estejam a incomodar turistas e locais, dando uma má imagem da nossa cidade.Será que tenho de chamar a polícia?
-Não se passa nada, deixe-me em paz por favor .Voltava a pedir o homem no chão.
Rapidamente se juntou um aglomerado de pessoas para saber o que se passava pois de acordo com aquilo que eu via e ouvia (a alguns metros de distância), o homem estava, de facto , "colado" aquele passeio.
-Levante-se homem!Fale connosco e conte-nos o que se passa!Quer que eu chame um taxi?Iam perguntando as pessoas que se mostravam preocupadas com o estranho individuo..
-Espere aí, deixe-me levantá-lo..
-NÃO ME TOQUEM!
Tudo mudou.O imperativismo da sua reacção foi de tal maneiras autoritário que algumas pessoas,incluindo eu, se afastaram.Era uma pessoa sozinha, perdida no meio de tantas outras banais e mediocres que falavam em dialectos do senso comum,incapazes de pensar para além daquilo que realmente viam. Talvez eu estivesse enganado em relação a este senhor, talvez ele não fosse assim tão indiferente..
-Desculpe..Não o quero magoar de maneira alguma..Só quero ajudar..
-Ninguém me pode ajudar.
-Mas ao menos diga-nos, conte-nos o que se passa!Não pode ficar neste passeio para sempre!
-Querem mesmo saber?
Assutei-me, acho que não estava pronto para ouvir o que aquele senhor tinha para dizer pois afinal de contas, que motivo leva uma pessoa a deitar-se no chão ridicularizando-se a este ponto?.Contudo, aproximei-me e cepticamente respondi:
-Sim.
Ele olhou para o céu, como se falasse apenas para si:
-Deus me perdoe..Deus me perdoe..Pois o que vos vou transmitir não deveria ser da vossa conta.
-Conte-nos!Exclamava a multidão que o circundava, quase que em unisom.Este finalmente fitou-os:
- ......................................Disse.
Longas horas depois estava deitado no chão, ao lado de centenas de pessoas.
O que disse ele?Talvez seja melhor guardar tal segredo..

16.12.08

O Alquimista

-Abençoado aquele que busca clarividência

Não é fantástico?
Quando dou por mim embrulhado num invólucro de luz. De mão dada com a perfeição.
Um equilíbrio perfeito. Um maravilhoso cliché de felicidade.

O segredo é manter a calma. Manter a cabeça limpa, livre.

Mas há regras a cumprir. A balança não vive apenas de sorrisos.
E por isso existe um caminho.
São os corredores escarlate, onde todas as memórias nos pesam.
Onde o Tormento reina, e guarda a entrada para a Cidadela.

E por isso sigo o Sol e os seus filhos, e a Ela deixo a minha confiança.

Mas como é claro, falo no passado.

15.12.08

Ruidos de uma manhã de Sábado

Despertar,
Ouvir,
Barulhos sonantes,
Acolhedores
No entanto, distantes

Tudo passa, lá fora.
Alheios ás janelas entreabertas
Caminham ingenuamente,
inocentemente.


O homem já as afia
E as penas adoram o Mar
Ouve-se, bem no fundo,
As colinas a acordar

E caem as folhas caducas
Estéticas, uma a uma.
O relógio não para
Mas pensa duas vezes.

São restos de uma sexta
Que se sentem na alvorada
(O fogo jaz,semi apagado)
E sem o saber sentimos ruidos,
Emoções, de uma manhã de Sábado

A tela é nossa
A paleta é deles
Pintam,cantam,
Mas para quem?

12.12.08

Prisioneiros da Indiferença

Passo a linha do comboio
Paro, escuto e olho
Nada vejo, nada ouço, mas sinto
O vazio de um espírito insatisfeito
Que nasce do amor imperfeito, que a vida nos tem

Sigo a estrada que me indicam
É monótona, sem cor…
Perco-me de propósito,
Afinal estar perdido tem valor

É o nada que me leva para a frente,
Porque nada mais tenho a fazer
Até porque foi deste nada que a vida se viu nascer

Seguem todos caminhos diferentes
Caminhos que se cruzam;
Mas não está o outro ciente
Que de tal coisa o acusam

A sua indiferença define a minha vida
Angustia deste amor,
Não seja este essencial
Quero libertar-me
Quero ser simples mortal

11.12.08

A poesia e eu

"Aí que prazer não cumprir um dever/ Ter um livro para ler e não o fazer", Fernando Pessoa, poema Liberdade. Embora admire o brilhantismo de Pessoa em tudo o que escreveu, gosto particularmente do poema que acima referi. É simples, o que leva à sua complexidade, concreto sem deixar de denotar a subjectividade própria do poeta, é do dia-a-dia, embora ninguém conseguisse explicá-lo de forma tão concisa e delicada.Penso que é esta a beleza da poesia: o ser paradoxal, de carácter universal, o permitir várias interpretações, o deixar perdido quem acha que sempre esteve certo, e dar esperança àquele que nunca parece ser encontrado. Se repararmos, quando se fala em poesia, rapidamente até a prosa se torna poética: é contagiante.Outro facto que adoro nesta forma de expressão escrita é a linha ténue que a separa do absurdo, do obsceno, da pirosada, da estupidez. Esta característica fá-la logo, a meu ver, a melhor forma de exprimirmos o insólito que, em verdade, é o nosso quotidiano.Tenho pena que num país como Portugal, berço de poetas, a poesia seja desvalorizada e pouco praticada. Sim, porque mesmo quem nasce com veia de poeta, tem de nela pôr sangue a circular.Assim, digo que antes de gostar de poesia, é preciso aprender a gostar. Espero que esta prosa sobre poesia seja assim um estímulo, um meio, para atingir o fim: a capacidade de admirar e ler poesia, simplesmente porque sim!

6.12.08

Espelhos

Vento, assobia razões de ser
Sopra..Sopra..Sopra..
Faz frio a quem o não quer ter

Maré, vem em ritmo acelarado
Sobe..Sobe..Sobe
Cobre areias do passado

Eu vejo porque vejo
Não porque quero ver
Espelhos,enigmas,equações,
O medo de me perder

E eles olham...
E eu especulo...

Mas são apenas espelhos!
Olhares nostálgicos e vencidos!
Qual o medo de os enfrentar
Se também estamos perdidos?

Em frente, o olhar
Reflexo de reflexões
Abre portas,abre a mente
Em frente, o consciente

Mudo, observo o eu que me vê
Por detrás destes espelhos
Pois está na hora de ouvir
O que em silencio melhor se ouve.

E o vento sopra...
E a maré sobe...