26.5.09

Sentido


Acabou o tema de conversa.

Afina, já estou rotulado.

Do que vale mostrar quem sou?


Estas posses que me rodeiam

dizem quem sou,

posso sentir-me seguro,

mas o público está surdo.


Uma onda bate nas rochas de plástico.

Não passam de plástico.

São, por isso, mais do que fachada.


E se caísse,

em que círculo ficava?

Talvez não devesse sair da cama.

Eternamente envolvido neste Purgatório.


Para onde olham?

Não passam de cegos que, para estarem seguros,

usam palas nos olhos.


Futilidade reciclada.

É disso que falam.

Quem, como, e quando!

Em total afonia.


23.5.09

O Problema


Qual é ? Eu digo-vos: esta sociedade "homo sapiana" limita-se a ver o que se passa. Nem sequer observa! Não pensa.
Será assim tão penoso usar parte da instrução que receberam, para questionar as mentiras que nos rodeiam?
Como é possível que, após anos de evolução ciêntifica, as pessoas continuem a acreditar na existência de um senhor de barbas, sentado no seu trono, zelando por nós? É o medo que provoca isto. As pessoas têm medo de pensar em soluções diferentes. E, não sabendo lidar com "soluções lógicas", acusam estas soluções de serem simples blasfémias.
Considerando o seguinte exemplo: relâmpagos rasgam o céu. O Homem, incapaz de entender o fenómeno (e também com medo), encontra uma justificação para aquilo que não entende.Então, é criado um Deus. E, pelo que parece, os relâmpagos são causados pela ira deste Deus.
Uns anos mais tarde, a Ciência justifica o fenómeno. O Deus desaparece.
A grande pergunta que mantém Deus "vivo" é a origem do Universo. Quando esta questão for respondida (e será), a religião terá o seu merecido fim.
É confortável pensar que Deus existe. Mas, também é confortável pensar que tudo é fácil e possível! Porém, quando pensamos em coisas demasiado boas, chegamos a um a conclusão: "isto é impossível". Isso chama-se raciocínio. Raciocínio é exactamente o que muitos não usam ao pensar em Deus.
Outra razão para existir tanta fé em Deus é o medo da morte, e, a esperança de haver vida após esta. Maior parte dos seres humanos quer viver por muito tempo (alguns até desejam viver para sempre), e têm esperança que haja vida depois do último suspiro. Na verdade, só querem encontrar entes queridos, ou, pessoas a que tenham afecto. Então pensam que por estar horas de joelhos, a murmurar orações, vão conseguir atingir os seus seus objectivos. É, no minímo, bizarro.
Durante anos sofri uma educação católica, e ouvia: "Ser Cristão é bom! É uma espectacular forma de vida!", etc... mas serei eu má pessoa ao não ser Cristão? Ou melhor, reformulando a pergunta: faz alguma diferença??? Um cristão tem tanto sucesso (as suas preces são ouvidas - "Graças a Deus" - gostam de dizer), como qualquer pessoa de outra, ou nenhuma, religião.
A religião apenas marca a diferença e provoca guerras. A religião é um paradoxo, afirmando que matar é pecado, e depois, matando em nome da sua fé! A Inquisição, o tribunal cristão, matava os hereges em praça pública.
E, agora, vamos "olhar" para a Biblía. Milhões de pessoas seguem a sua vida por ela. Mas o que é a Biblía? Um simples livro. Não é mais do que um livro. Qualquer pessoa pode escrever um livro e fantasiar uma estória. Porque não? Tentem! Criem o vosso próprio profeta! Todo fixe e cheio de super-poderes... pode ser que, daqui a um tempo, alguém encontre o livro, goste, venere, espalhe, e mate em nome do seu profeta.

22.5.09

Pacote

Recebi uma encomenda. Foi a primeira que recebi. É uma caixa de cartão castanho amarelado, selada com agrafos e fita-cola industrial. Abri com uma certa avidez, como se me faltasse o ar e estivesse prestes a abrir uma janela. Pequenos fragmentos de esferovite esvoaçaram quando desdobrei as abas de cartão. Procurei rapidamente o conteúdo, camuflado no cheiro a plástico. Era um bloco de papel. Um livro de instruções. Ensinava-me a dormir, a comer, a pedir por mais comida, a dormir e a comer. Vivi assim, rodeado de familiares que apreciavam com uma ridícula ternura e admiração estas simples, básicas instruções que seguia.
Mais tarde recebo outra encomenda. Esta caixa era mais escura, mais pesada. Abro de novo, com a mesma voracidade, entediado com as instruções que me haviam sido concedidas e que há muitos e bons meses cumpria cegamente. Esta era diferente: Ensinou-me a falar. A repetir os sons dos que me rodeavam, a interessar-me por objectos sonoros em movimento, a manter o equilíbrio em duas pernas. As encomendas foram-se sucedendo, e eu, com a plena consciência disso, ia seguindo as suas instruções, sentindo-me cada vez mais parecido com os que deambulavam à minha volta. Aprendi a aprender, a aceitar, a negar, a contradizer, até a criar e cuidar relações com outros que recebiam as suas encomendas.
Todos nós somos o que nos foi instruído pelas caixas de cartão industrial, todos nós seguimos o código e aprendemos com ele a viver. O que nos distingue é a forma como interpretamos o que lemos, porque, afinal de contas, a caixa também nos ensina a interpretar. Hoje, espero ansiosamente outra encomenda, outra encomenda que me ensine a dar o próximo passo, outro bloco de papel para interpretar e mais tarde mostrar quem sou.

Silêncio

Com o fenecer da luz morrem os passeios arejados, os sons sibilantes do frenesim citadino e tomam vida os candeeiros que iluminam o caminho. Parei diante da porta tirando as chaves da mochila que me caía pelo ombro, enquanto os músculos da cara me doíam por tanto forçar o sorriso.


Este era o pior momento do meu dia: o medo varria tudo em ondas de pânico só de pensar no confronto com o interior do inferno a que chamava casa e, num gesto involuntário criado pelo hábito, arqueava as costas, rastejando até à cozinha de olhos postos no chão.

Dois baques surdos no andar de cima aceleraram o meu coração, deixando-me tonto e suado, encostado à parede, imóvel. Mais pancadas se seguiram, despoletando uma raiva fustigada pela impotência e pelo pó que caía do tecto. O balançar pesado do candeeiro cessou pouco depois de o silêncio inundar as divisões, sufocando-me. O ranger de uma porta desvendou os soluços distantes e abafados da minha irmã e, com um passo ritmado e monstruosamente tranquilo, desce as escadas o meu pai. É um homem baixo, corpulento e radioso, bem vestido e hirto. Apertava o cinto das calças pacatamente e acendia um cigarro, mais um cigarro que morreria espremido no meio de um jornal ou num copo de alcoól. A fúria corria-me nas veias e a náusea estremecia-me as pernas. O nojo era imenso. O nosso olhar cruzou-se. Parou. Ali, no meio da sala, com um sorriso escarninho na cara. Aquela cara inocente, como se nada tivesse alguma vez passado.

Quem visse de fora aquela cena, decerto que olhava de lado para mim: “Um pai com um aspecto tão dado, e uns filhos com aquele arzinho?”. Era respeitado na vizinhança e tido como “Um homem sério! Esteve sempre lá para educar os filhos!” cochichavam as vizinhas, ignorantes quanto aos verdadeiros “dons” daquele senhor.


Todas as noites adormeço em lágrimas, pensando que vai ser amanhã que vou contar a alguém... mas quem iria acreditar? Um homem respeitado nunca faria algo assim, e o tolo sou eu por inventar uma coisa dessas.

Marcho num trilho de desgosto e angústia, longe de tudo e de todos, onde ninguém me pode ver, longe da luz