Com o fenecer da luz morrem os passeios arejados, os sons sibilantes do frenesim citadino e tomam vida os candeeiros que iluminam o caminho. Parei diante da porta tirando as chaves da mochila que me caía pelo ombro, enquanto os músculos da cara me doíam por tanto forçar o sorriso.
Este era o pior momento do meu dia: o medo varria tudo em ondas de pânico só de pensar no confronto com o interior do inferno a que chamava casa e, num gesto involuntário criado pelo hábito, arqueava as costas, rastejando até à cozinha de olhos postos no chão.
Dois baques surdos no andar de cima aceleraram o meu coração, deixando-me tonto e suado, encostado à parede, imóvel. Mais pancadas se seguiram, despoletando uma raiva fustigada pela impotência e pelo pó que caía do tecto. O balançar pesado do candeeiro cessou pouco depois de o silêncio inundar as divisões, sufocando-me. O ranger de uma porta desvendou os soluços distantes e abafados da minha irmã e, com um passo ritmado e monstruosamente tranquilo, desce as escadas o meu pai. É um homem baixo, corpulento e radioso, bem vestido e hirto. Apertava o cinto das calças pacatamente e acendia um cigarro, mais um cigarro que morreria espremido no meio de um jornal ou num copo de alcoól. A fúria corria-me nas veias e a náusea estremecia-me as pernas. O nojo era imenso. O nosso olhar cruzou-se. Parou. Ali, no meio da sala, com um sorriso escarninho na cara. Aquela cara inocente, como se nada tivesse alguma vez passado.
Quem visse de fora aquela cena, decerto que olhava de lado para mim: “Um pai com um aspecto tão dado, e uns filhos com aquele arzinho?”. Era respeitado na vizinhança e tido como “Um homem sério! Esteve sempre lá para educar os filhos!” cochichavam as vizinhas, ignorantes quanto aos verdadeiros “dons” daquele senhor.
Todas as noites adormeço em lágrimas, pensando que vai ser amanhã que vou contar a alguém... mas quem iria acreditar? Um homem respeitado nunca faria algo assim, e o tolo sou eu por inventar uma coisa dessas.
Marcho num trilho de desgosto e angústia, longe de tudo e de todos, onde ninguém me pode ver, longe da luz
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