22.5.09

Pacote

Recebi uma encomenda. Foi a primeira que recebi. É uma caixa de cartão castanho amarelado, selada com agrafos e fita-cola industrial. Abri com uma certa avidez, como se me faltasse o ar e estivesse prestes a abrir uma janela. Pequenos fragmentos de esferovite esvoaçaram quando desdobrei as abas de cartão. Procurei rapidamente o conteúdo, camuflado no cheiro a plástico. Era um bloco de papel. Um livro de instruções. Ensinava-me a dormir, a comer, a pedir por mais comida, a dormir e a comer. Vivi assim, rodeado de familiares que apreciavam com uma ridícula ternura e admiração estas simples, básicas instruções que seguia.
Mais tarde recebo outra encomenda. Esta caixa era mais escura, mais pesada. Abro de novo, com a mesma voracidade, entediado com as instruções que me haviam sido concedidas e que há muitos e bons meses cumpria cegamente. Esta era diferente: Ensinou-me a falar. A repetir os sons dos que me rodeavam, a interessar-me por objectos sonoros em movimento, a manter o equilíbrio em duas pernas. As encomendas foram-se sucedendo, e eu, com a plena consciência disso, ia seguindo as suas instruções, sentindo-me cada vez mais parecido com os que deambulavam à minha volta. Aprendi a aprender, a aceitar, a negar, a contradizer, até a criar e cuidar relações com outros que recebiam as suas encomendas.
Todos nós somos o que nos foi instruído pelas caixas de cartão industrial, todos nós seguimos o código e aprendemos com ele a viver. O que nos distingue é a forma como interpretamos o que lemos, porque, afinal de contas, a caixa também nos ensina a interpretar. Hoje, espero ansiosamente outra encomenda, outra encomenda que me ensine a dar o próximo passo, outro bloco de papel para interpretar e mais tarde mostrar quem sou.

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