26.5.09

Sentido


Acabou o tema de conversa.

Afina, já estou rotulado.

Do que vale mostrar quem sou?


Estas posses que me rodeiam

dizem quem sou,

posso sentir-me seguro,

mas o público está surdo.


Uma onda bate nas rochas de plástico.

Não passam de plástico.

São, por isso, mais do que fachada.


E se caísse,

em que círculo ficava?

Talvez não devesse sair da cama.

Eternamente envolvido neste Purgatório.


Para onde olham?

Não passam de cegos que, para estarem seguros,

usam palas nos olhos.


Futilidade reciclada.

É disso que falam.

Quem, como, e quando!

Em total afonia.


23.5.09

O Problema


Qual é ? Eu digo-vos: esta sociedade "homo sapiana" limita-se a ver o que se passa. Nem sequer observa! Não pensa.
Será assim tão penoso usar parte da instrução que receberam, para questionar as mentiras que nos rodeiam?
Como é possível que, após anos de evolução ciêntifica, as pessoas continuem a acreditar na existência de um senhor de barbas, sentado no seu trono, zelando por nós? É o medo que provoca isto. As pessoas têm medo de pensar em soluções diferentes. E, não sabendo lidar com "soluções lógicas", acusam estas soluções de serem simples blasfémias.
Considerando o seguinte exemplo: relâmpagos rasgam o céu. O Homem, incapaz de entender o fenómeno (e também com medo), encontra uma justificação para aquilo que não entende.Então, é criado um Deus. E, pelo que parece, os relâmpagos são causados pela ira deste Deus.
Uns anos mais tarde, a Ciência justifica o fenómeno. O Deus desaparece.
A grande pergunta que mantém Deus "vivo" é a origem do Universo. Quando esta questão for respondida (e será), a religião terá o seu merecido fim.
É confortável pensar que Deus existe. Mas, também é confortável pensar que tudo é fácil e possível! Porém, quando pensamos em coisas demasiado boas, chegamos a um a conclusão: "isto é impossível". Isso chama-se raciocínio. Raciocínio é exactamente o que muitos não usam ao pensar em Deus.
Outra razão para existir tanta fé em Deus é o medo da morte, e, a esperança de haver vida após esta. Maior parte dos seres humanos quer viver por muito tempo (alguns até desejam viver para sempre), e têm esperança que haja vida depois do último suspiro. Na verdade, só querem encontrar entes queridos, ou, pessoas a que tenham afecto. Então pensam que por estar horas de joelhos, a murmurar orações, vão conseguir atingir os seus seus objectivos. É, no minímo, bizarro.
Durante anos sofri uma educação católica, e ouvia: "Ser Cristão é bom! É uma espectacular forma de vida!", etc... mas serei eu má pessoa ao não ser Cristão? Ou melhor, reformulando a pergunta: faz alguma diferença??? Um cristão tem tanto sucesso (as suas preces são ouvidas - "Graças a Deus" - gostam de dizer), como qualquer pessoa de outra, ou nenhuma, religião.
A religião apenas marca a diferença e provoca guerras. A religião é um paradoxo, afirmando que matar é pecado, e depois, matando em nome da sua fé! A Inquisição, o tribunal cristão, matava os hereges em praça pública.
E, agora, vamos "olhar" para a Biblía. Milhões de pessoas seguem a sua vida por ela. Mas o que é a Biblía? Um simples livro. Não é mais do que um livro. Qualquer pessoa pode escrever um livro e fantasiar uma estória. Porque não? Tentem! Criem o vosso próprio profeta! Todo fixe e cheio de super-poderes... pode ser que, daqui a um tempo, alguém encontre o livro, goste, venere, espalhe, e mate em nome do seu profeta.

22.5.09

Pacote

Recebi uma encomenda. Foi a primeira que recebi. É uma caixa de cartão castanho amarelado, selada com agrafos e fita-cola industrial. Abri com uma certa avidez, como se me faltasse o ar e estivesse prestes a abrir uma janela. Pequenos fragmentos de esferovite esvoaçaram quando desdobrei as abas de cartão. Procurei rapidamente o conteúdo, camuflado no cheiro a plástico. Era um bloco de papel. Um livro de instruções. Ensinava-me a dormir, a comer, a pedir por mais comida, a dormir e a comer. Vivi assim, rodeado de familiares que apreciavam com uma ridícula ternura e admiração estas simples, básicas instruções que seguia.
Mais tarde recebo outra encomenda. Esta caixa era mais escura, mais pesada. Abro de novo, com a mesma voracidade, entediado com as instruções que me haviam sido concedidas e que há muitos e bons meses cumpria cegamente. Esta era diferente: Ensinou-me a falar. A repetir os sons dos que me rodeavam, a interessar-me por objectos sonoros em movimento, a manter o equilíbrio em duas pernas. As encomendas foram-se sucedendo, e eu, com a plena consciência disso, ia seguindo as suas instruções, sentindo-me cada vez mais parecido com os que deambulavam à minha volta. Aprendi a aprender, a aceitar, a negar, a contradizer, até a criar e cuidar relações com outros que recebiam as suas encomendas.
Todos nós somos o que nos foi instruído pelas caixas de cartão industrial, todos nós seguimos o código e aprendemos com ele a viver. O que nos distingue é a forma como interpretamos o que lemos, porque, afinal de contas, a caixa também nos ensina a interpretar. Hoje, espero ansiosamente outra encomenda, outra encomenda que me ensine a dar o próximo passo, outro bloco de papel para interpretar e mais tarde mostrar quem sou.

Silêncio

Com o fenecer da luz morrem os passeios arejados, os sons sibilantes do frenesim citadino e tomam vida os candeeiros que iluminam o caminho. Parei diante da porta tirando as chaves da mochila que me caía pelo ombro, enquanto os músculos da cara me doíam por tanto forçar o sorriso.


Este era o pior momento do meu dia: o medo varria tudo em ondas de pânico só de pensar no confronto com o interior do inferno a que chamava casa e, num gesto involuntário criado pelo hábito, arqueava as costas, rastejando até à cozinha de olhos postos no chão.

Dois baques surdos no andar de cima aceleraram o meu coração, deixando-me tonto e suado, encostado à parede, imóvel. Mais pancadas se seguiram, despoletando uma raiva fustigada pela impotência e pelo pó que caía do tecto. O balançar pesado do candeeiro cessou pouco depois de o silêncio inundar as divisões, sufocando-me. O ranger de uma porta desvendou os soluços distantes e abafados da minha irmã e, com um passo ritmado e monstruosamente tranquilo, desce as escadas o meu pai. É um homem baixo, corpulento e radioso, bem vestido e hirto. Apertava o cinto das calças pacatamente e acendia um cigarro, mais um cigarro que morreria espremido no meio de um jornal ou num copo de alcoól. A fúria corria-me nas veias e a náusea estremecia-me as pernas. O nojo era imenso. O nosso olhar cruzou-se. Parou. Ali, no meio da sala, com um sorriso escarninho na cara. Aquela cara inocente, como se nada tivesse alguma vez passado.

Quem visse de fora aquela cena, decerto que olhava de lado para mim: “Um pai com um aspecto tão dado, e uns filhos com aquele arzinho?”. Era respeitado na vizinhança e tido como “Um homem sério! Esteve sempre lá para educar os filhos!” cochichavam as vizinhas, ignorantes quanto aos verdadeiros “dons” daquele senhor.


Todas as noites adormeço em lágrimas, pensando que vai ser amanhã que vou contar a alguém... mas quem iria acreditar? Um homem respeitado nunca faria algo assim, e o tolo sou eu por inventar uma coisa dessas.

Marcho num trilho de desgosto e angústia, longe de tudo e de todos, onde ninguém me pode ver, longe da luz

5.3.09

Violência



Um comportamento presente na vida do ser humano desde sempre e para sempre. O Homem consegue arranjar qualquer motivo para justificar os seus comportamentos violentos, tal como a competição e, em alguns casos mais "engraçados", a justiça.
Uma mistura explosiva de sentimentos, como a ganância e o medo, levam-nos à violência.
Mas, na actualidade, haverá algum outro motivo ou ajudante que proporcione estímulos na nossa mente de modo a praticarmos ou aceitarmos a violência? Alguns tentam encontrar: filmes, música, jogos...felizmente não é isto que irá de fazer de mim uma pessoa mais violenta. A tentativa de censura destes casos só irá esconder a grande verdade, que a violência está presente em todo o lado! Olhem para as vossas próprias casas, não estará presente o merchandise com mais violência e sucesso em vendas? Refiro-me a Crucifixos. É que já fizeram bastantes filmes envolvendo a vida de Cristo, surge algum novo e não é dada grande importância, porém, há alguns anos estreou a "Paixão de Cristo", um verdadeiro sucesso...e porquê? Montes de violência gratuita! Vamos levar a família a ver! É fixe! É diferente! É novo (nem por isso, já passaram 2009 anos)!
Algo que soa tão pacífico como a religião é, provavelmente, um dos maiores responsáveis de violência e guerras. Porque o Ser Humano nunca iria suportar que um "vizinho" tivesse um Deus "maior" do que o seu próprio!
E já viram a quantidade de violências existentes? Física, psicológica, política, cultural, verbal, infantil....Sinceramente, como pode o Ser Humano, o qual raramente renega as tentações, conseguir evitar tantas hipóteses para alcançar os seus objectivos?
Uma das situações mais interessantes onde a violência está presente e é estranhamente aceite (até por pessoas totalmente apologistas da não-violência), é o desporto. Certas mães renegam qualquer tipo de violência, porém, ao ver o seu filhote a vencer o jogo gritam eufóricas: "É isso mesmo! Mostra-lhes! Mata-os!"...foi criado um modelo de orgulho físico, onde este é mais importante do que a inteligência e conhecimento. Será um encorajamento para nos tornarmos não só mais violentos, mas também estúpidos?
Ainda nos surpreendemos quando alunos chegam às suas escolas com armas e decidem matar alguns colegas. Nesses momentos procura-se saber os gostos destes alunos e depois apontá-los como causadores do sucedido...e que tal, por uma vez, escutarmos o que os alunos têm a dizer? Não será que foram gozados durante anos pelos colegas (obviamente "heróis da escola") por serem diferentes? Por não serem um modelo igual aos demais? Aqui comprovamos que uma violência leva a outra violência.
É uma simples cadeia de acontecimentos que nos leva a receber a violência de braços abertos. Liguem a vossa televisão, irão ser "bombardeados" por notícias de terror, assaltos, guerras, etc...tudo isto irá provocar o medo! "Comprem as vossas armas e combatam o medo!"...esta é a mensagem que recebemos, e com violência tentamos acabar o medo, é um ciclo vicioso e sem fim.

27.1.09

Quem sou Eu


"Quem" é apenas a forma que antecede a função do "Quê", e o que eu sou é uma grande mistura de todas as minhas experiências, sendo elas mais ou menos agradáveis, mas eu sou isso mesmo: toda a educação que recebi, acontecimentos que presenciei, livros que li, filmes que vi, músicas que ouvi, e amigos que fiz... sou o resultado da minha vivência pedagógica, e, também uma vítima da sociedade e da Vox Populi.
Porém, como resultado que sou, não sou um resultado constante. A vida não pára, logo, a fórmula altera-se e apenas posso dizer quem fui.
Cada atitude ou decisão que tomo (como escrever os meus pensamentos neste texto) alteram o "meu eu". Ao pensar assim, o que eu sou torna-se como que um produto inevitável do destino, pois não sou eu que escolho quem eu quero ser, embora possa tentar e, algumas vezes conseguir.
Todos nós, agentes racionais, conscientes do mundo, e conscientes de nós próprios, nos preocupamos pelo menos uma vez na vida em tentar perceber se estamos sujeitos a este destino. É uma pergunta de difícil resposta, mas, creio que possa dizer que sou quem sou através de uma sequência de causas (tão simples como, por exemplo, o local do meu nascimento), sem a possibilidade de escolher livremente.
E então? Quem sou eu? Um ser vivo em constante moldagem: tudo o que me acontece e tudo o que eu quero que aconteça não é realmente resultado do meu poder-de-escolha, mas sim resultado de um conjunto de condições e restrições (externas/internas; físicas/mentais) a que estou sujeito e de que não me consigo livrar de maneira alguma...
Quem vou ser eu? Bem, apenas me resta esperar para ver o que tenho reservado, e não posso julgar tal como fiz com o meu passado.
Acho assustador que a ideia do meu "eu" esteja sob a responsabilidade de tudo o que me envolve, afinal, só posso escolher uma "parte". Não seria bom poder escolher o "caminho" que gostaria de percorrer? Não. Seria impossível, é uma responsabilidade que apenas cabe ao Deus de cada um.
Eu sou...sou uma tentativa. A tentativa de sempre percorrer o caminho mais certo, sem razões para me matar devido à loucura de perceber que não tenho escolha para quem quero ser.

17.12.08

Bizarros minutos


Era um homem normal,um como os outros, talvez.Numa certa manhã foi provavelmente para o trabalho,como qualquer outra pessoa , caminhando pelas magnificas ruas de Lisboa.Estávamos em Janeiro, e o Inverno cobria a cidade em tons de cinzento.
Lembro-me de sentir uma estranha sensação de desconforto quando cruzei olhares com este esteriótipo de pessoa banal.Talvez o desconforto deu-se devido ao facto de ele ser tão indiferente..
Após esta estranha troca de olhares resolvi,ainda intrigado, desviar a atenção para o quotidiano e deslocar-me como todos os outros à minha volta.
Foram breves os segundos que se sucederam a seguir a este confronto pois rapidamente percebi que algo estava errado. O senhor, com o qual eu tinha cruzado olhares, estava agora deitado,estendido nos passeios da cidade.
Foi bizarro pois este não parecia nem morto nem magoado, estava simplesmente deitado, olhando para o céu, suavemente. Fiquei estupefacto e antes de poder dizer o que quer que fosse ao homem, um senhor tropeçou nele deixando cair todos os seus pertences.
-Então, o que faz aí deitado caramba?Você está bem?Perguntava o homem que caíra, com um certo tom de raiva na sua questão.
-Sim, só quero estar sozinho, deixe-me em paz por favor. Respondia, imóvel.
-Deixo-o em paz?!Então o senhor deita-se no meio da multidão e espera que ninguém tropece em cima de si?Está louco?Se quer paz meta-se num autocarro e feche-se em sua casa, você mais a sua bebida ou o que quer que seja!
-Não estou bêbado.
-Então diga-me o que se passa aqui pois eu não posso admitir que pessoas como você estejam a incomodar turistas e locais, dando uma má imagem da nossa cidade.Será que tenho de chamar a polícia?
-Não se passa nada, deixe-me em paz por favor .Voltava a pedir o homem no chão.
Rapidamente se juntou um aglomerado de pessoas para saber o que se passava pois de acordo com aquilo que eu via e ouvia (a alguns metros de distância), o homem estava, de facto , "colado" aquele passeio.
-Levante-se homem!Fale connosco e conte-nos o que se passa!Quer que eu chame um taxi?Iam perguntando as pessoas que se mostravam preocupadas com o estranho individuo..
-Espere aí, deixe-me levantá-lo..
-NÃO ME TOQUEM!
Tudo mudou.O imperativismo da sua reacção foi de tal maneiras autoritário que algumas pessoas,incluindo eu, se afastaram.Era uma pessoa sozinha, perdida no meio de tantas outras banais e mediocres que falavam em dialectos do senso comum,incapazes de pensar para além daquilo que realmente viam. Talvez eu estivesse enganado em relação a este senhor, talvez ele não fosse assim tão indiferente..
-Desculpe..Não o quero magoar de maneira alguma..Só quero ajudar..
-Ninguém me pode ajudar.
-Mas ao menos diga-nos, conte-nos o que se passa!Não pode ficar neste passeio para sempre!
-Querem mesmo saber?
Assutei-me, acho que não estava pronto para ouvir o que aquele senhor tinha para dizer pois afinal de contas, que motivo leva uma pessoa a deitar-se no chão ridicularizando-se a este ponto?.Contudo, aproximei-me e cepticamente respondi:
-Sim.
Ele olhou para o céu, como se falasse apenas para si:
-Deus me perdoe..Deus me perdoe..Pois o que vos vou transmitir não deveria ser da vossa conta.
-Conte-nos!Exclamava a multidão que o circundava, quase que em unisom.Este finalmente fitou-os:
- ......................................Disse.
Longas horas depois estava deitado no chão, ao lado de centenas de pessoas.
O que disse ele?Talvez seja melhor guardar tal segredo..

16.12.08

O Alquimista

-Abençoado aquele que busca clarividência

Não é fantástico?
Quando dou por mim embrulhado num invólucro de luz. De mão dada com a perfeição.
Um equilíbrio perfeito. Um maravilhoso cliché de felicidade.

O segredo é manter a calma. Manter a cabeça limpa, livre.

Mas há regras a cumprir. A balança não vive apenas de sorrisos.
E por isso existe um caminho.
São os corredores escarlate, onde todas as memórias nos pesam.
Onde o Tormento reina, e guarda a entrada para a Cidadela.

E por isso sigo o Sol e os seus filhos, e a Ela deixo a minha confiança.

Mas como é claro, falo no passado.

15.12.08

Ruidos de uma manhã de Sábado

Despertar,
Ouvir,
Barulhos sonantes,
Acolhedores
No entanto, distantes

Tudo passa, lá fora.
Alheios ás janelas entreabertas
Caminham ingenuamente,
inocentemente.


O homem já as afia
E as penas adoram o Mar
Ouve-se, bem no fundo,
As colinas a acordar

E caem as folhas caducas
Estéticas, uma a uma.
O relógio não para
Mas pensa duas vezes.

São restos de uma sexta
Que se sentem na alvorada
(O fogo jaz,semi apagado)
E sem o saber sentimos ruidos,
Emoções, de uma manhã de Sábado

A tela é nossa
A paleta é deles
Pintam,cantam,
Mas para quem?

12.12.08

Prisioneiros da Indiferença

Passo a linha do comboio
Paro, escuto e olho
Nada vejo, nada ouço, mas sinto
O vazio de um espírito insatisfeito
Que nasce do amor imperfeito, que a vida nos tem

Sigo a estrada que me indicam
É monótona, sem cor…
Perco-me de propósito,
Afinal estar perdido tem valor

É o nada que me leva para a frente,
Porque nada mais tenho a fazer
Até porque foi deste nada que a vida se viu nascer

Seguem todos caminhos diferentes
Caminhos que se cruzam;
Mas não está o outro ciente
Que de tal coisa o acusam

A sua indiferença define a minha vida
Angustia deste amor,
Não seja este essencial
Quero libertar-me
Quero ser simples mortal

11.12.08

A poesia e eu

"Aí que prazer não cumprir um dever/ Ter um livro para ler e não o fazer", Fernando Pessoa, poema Liberdade. Embora admire o brilhantismo de Pessoa em tudo o que escreveu, gosto particularmente do poema que acima referi. É simples, o que leva à sua complexidade, concreto sem deixar de denotar a subjectividade própria do poeta, é do dia-a-dia, embora ninguém conseguisse explicá-lo de forma tão concisa e delicada.Penso que é esta a beleza da poesia: o ser paradoxal, de carácter universal, o permitir várias interpretações, o deixar perdido quem acha que sempre esteve certo, e dar esperança àquele que nunca parece ser encontrado. Se repararmos, quando se fala em poesia, rapidamente até a prosa se torna poética: é contagiante.Outro facto que adoro nesta forma de expressão escrita é a linha ténue que a separa do absurdo, do obsceno, da pirosada, da estupidez. Esta característica fá-la logo, a meu ver, a melhor forma de exprimirmos o insólito que, em verdade, é o nosso quotidiano.Tenho pena que num país como Portugal, berço de poetas, a poesia seja desvalorizada e pouco praticada. Sim, porque mesmo quem nasce com veia de poeta, tem de nela pôr sangue a circular.Assim, digo que antes de gostar de poesia, é preciso aprender a gostar. Espero que esta prosa sobre poesia seja assim um estímulo, um meio, para atingir o fim: a capacidade de admirar e ler poesia, simplesmente porque sim!

6.12.08

Espelhos

Vento, assobia razões de ser
Sopra..Sopra..Sopra..
Faz frio a quem o não quer ter

Maré, vem em ritmo acelarado
Sobe..Sobe..Sobe
Cobre areias do passado

Eu vejo porque vejo
Não porque quero ver
Espelhos,enigmas,equações,
O medo de me perder

E eles olham...
E eu especulo...

Mas são apenas espelhos!
Olhares nostálgicos e vencidos!
Qual o medo de os enfrentar
Se também estamos perdidos?

Em frente, o olhar
Reflexo de reflexões
Abre portas,abre a mente
Em frente, o consciente

Mudo, observo o eu que me vê
Por detrás destes espelhos
Pois está na hora de ouvir
O que em silencio melhor se ouve.

E o vento sopra...
E a maré sobe...

20.11.08

Fios

O oscilar das cabeças em sintonia com o trânsito. Olhos fixos no mesmo ponto, lá fora. A chuva bate nos vidros e o vento assobia, entrelaçando-se com o murmúrio constante dos carros. Condutores hipnotizados por milhares de pontinhos cintilantes, embora sem brilho, reflectidos nas pequenas gotas formadas, juntos numa imensa massa deprimente.

Faltava pouco menos de dez minutos para as cinco e já anoitecia quando entrámos para o autocarro. Eu e mais quinze pessoas, como que em rebanho, sem pensar... saem quinze, entram quinze. Um equilíbrio fascinante, sem cor, cinzento. Para onde quer que olhe vejo corpos. Cadáveres com espasmos...continuam em pé. Nada mais. Em pé. Com os seus olhares vazios parecem esconder algo...Tentam esconder o próprio vazio.

Todos os dias faço este caminho, escuro. Lanço-me nos passeios, desejoso por chegar a casa. Faço o caminho de olhos postos nas pessoas. Sou o único. Todos fitam o chão e quase que vejo o fio. O fio que vai preso ao peito das pessoas e as guia para o seu buraco. Será que sou o único que os vê? Todos estão ligados por fios. Todos menos um. Ele. Um homem que deambula nesta rua pelo menos desde que me foi dada a faculdade da memória. Parece andar em câmara lenta no meio da multidão. Sempre àquela hora tomava o mesmo caminho, podia mesmo acertar o meu relógio por ele. Passava sempre em passo certo, ritmado. Pensava eu se não seria humano, mas uma visão. Não é puxado por nenhum fio, e o modo como planava por entre as calçadas fazia-o girar fora do círculo do tempo. Há anos que o vejo, com um rosto plano, inalterável. Sem grandes traços característicos. Por mais estranho que possa parecer, penso que, apesar de o ver há muitos anos todos os dias, se não fosse o facto de não ter o fio, eu não o reconheceria. Cada dia que passa, menos o seu rosto me fica na memória, embora eu pense cada vez mais nele. Como que um “rosto padrão”.
A curiosidade, despertando cada vez mais em mim, enaltecia a minha vontade de confrontar aquele homem. Quem é ele?

No dia seguinte voltei para casa pelo mesmo caminho, por entre os mesmos fios das mesmas pessoas que amassavam os mesmos passeios...até que o vi. É agora. Este vai ser o momento do confronto. E quando me preparava para dar o primeiro passo em direcção ao sítio onde o havia visto, perdido no meio da multidão, vejo-o mudar de direcção, dobrando uma esquina que nunca o tinha visto dobrar. Senti-me compelido a segui-lo. Por mais que me apressasse, o homem continuava sempre à minha frente, como água a escorrer por entre os dedos. Continuei a segui-lo por ruas, esquinas e mais ruas. O meu coração batia cada vez mais rápido, alimentado pela excitação, pelo medo também. Foi já passados uns bons minutos que começou a abrandar. A rua havia ficado cada vez menos congestionada e as vitrines das lojas molhadas cada vez menos constantes à medida que nos afastávamos do centro da cidade.A abrandar cada vez mais até que parou à porta de um enorme edifício com uma porta verde, entreaberta. Olhou para mim. Fitou-me com um olhar de que jamais me esquecerei. Fez-me sentir quente e fez os fios das pessoas , que me ladeavam e chocavam lentamente contra mim, desaparecerem. Entrou no edifício e senti uma voz na minha cabeça convidando-me a juntar-me a ele. Foi o que fiz. Entrei num espaço sem ruído, sem fumo, sem fios. Enormes paredes nuas de pedra escura transmitiam, estranhamente, uma sensação acolhedora de calor. Vários corpos pairavam em longos, maciços bancos. Os corpos sorriam...eram Pessoas. Livres de fios, exalavam um calor irresistível. O homem fitou-me de novo, agora com um sorriso, e acenou-me pacificamente, dirigindo-me para o seu lado, num dos bancos. Com a boca entreaberta, senti uma força puxar-me na sua direcção, sentar-me ao seu lado. Fez-me um sinal para nos ajoelharmos.
O sentimento, uma mistura paradoxal de energia pulsante e paz profunda, era intenso e sedutor. Ajoelhei-me mortal, levantei-me imortal...

Depois tudo ficou diferente. Sentia-me, tal como aquele homem, alheio à multidão que seguia, como sempre, com o seu fio condutor, cega. Sentia-me capaz de ver para além dos seus olhos...afinal de contas, todos tinham algo a esconder, tal como eu tinha. Não era só o vazio. Sentia-me alheio, mais lento que todos, mais desperto que todos. Já tudo fazia sentido...as estrada, as árvores, o ar falavam comigo numa linguagem de unidade. Tudo se interligava com cor, o cinzento desvanecia. Será que aquele homem se sentia assim quando era a vez dele de deambular pelas ruas? Será que tomei o seu lugar? Será que eu era um destes corpos? Será que, também eu, havia sido guiado por um fio? Um fio que todos viam menos eu? Será que a minha função agora é que alguém desperte, olhe para mim, e sinta o mesmo que eu senti quando olhei para aquele homem? Será que a minha função é guiar esse corpo ao edifício e ajoelhá-lo? Mostrar-lhe o caminho?